SÉRGIO TEIXEIRA

O Bem Aventurado

O Bem Aventurado

Este projeto tem como ponto de partida o trabalho realizado pelo autor e que se consubstanciou, entre outras coisas, na edição de uma Photophanzine, intitulada “Os Escolhidos”.

Com este trabalho em específico o autor pretendeu refletir sobre a forma como “(…) organizações ditas de cariz, político-partidário, religioso, económico, humanitário, ambientalista – uma mescla de todas e /ou partes delas - invadem o nosso quotidiano e manifestam a sua influência através de imposições normativas, mensagens, subliminares ou não, de onde advêm consequências diretas e/ou indiretas para a nossa existência” enquanto uma “(…) sociedade que é criada, manipulada, manietada, sustentada e destruída pelos interesses de organismos “parasitários”.

Ao revisitar esta temática, a intenção inicial do autor reitera-se: “ (…) relembrar/alertar/sensibilizar/consciencializar/retratar/criticar (…)” apontando, desta vez, o foco -  clara e assumidamente - para as religiões judaica, cristã e islâmica, explorando a especificidade das suas iconografias na narrativa visual.
                                                                                                                                  
Também à semelhança da produção fotográfica, a curta metragem é “(…) inspirada em vários autores de áreas distintas, desde a fotografia, a literatura, o cartoon e a música”.

Na fotografia, o autor evoca, novamente, as, obras de Misha Gordin, em especial, as séries “Shout”, “Crowd” e “The New Crowd”, onde o recurso constante ao padrão de repetição se lhe afigura constituir a metáfora perfeita para a forte componente de ritualização que denuncia em todas as três religiões por si ora escrutinadas - o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo - e que, em última instância, alimenta uma conveniente alienação dos seus fiéis. “Eis que vos envio como cordeiros por meio de lobos. Sede, portanto, astutos como as serpentes e inofensivos como as pombas” Evangelho segundo S. Mateus, Capítulo 10, Versículos 16-17
 
Os diferentes rituais de culto são simbolicamente mimetizados por bonecos inanimados, os fiéis alienados de todas as atrocidades que no mundo se praticam em nome da religião, que simultânea e desconcertadamente se conclui ser a sua causa, consequência e cura…

Referência particular para a narrativa severamente ateísta presente na produção literária de José Saramago, Friedrich Nietzsche e Karl Marx – com a qual o autor muito se identifica - a par de uma crítica insistente aos mecanismos de institucionalização da fé humana preceituados pelas diferentes religiões e que dão cobertura a conflitos seculares e hipócritas, à escala mundial, que o autor expõe na forma de uma sucessão violenta e crua de imagens chocantes exibidas pelos meios de comunicação social.

Infelizmente, para muitos, essas ditas “imagens chocantes” já não passam de “ruído visual” numa sociedade profundamente dessensibilizada, perante a exploração constante e despudorada do horror e a tragédia alheia…pelo sim, pelo não, reze-se uma Avé Maria pelas suas almas para que não nos atormente a visão do seu sofrimento.

O engodo para o sacrifício humano imposto pelas sedentas “guerras santas” é a recompensa divina: o paraíso e a ressurreição para uns, as setenta e duas virgens para outros…, mas, quando a carne é fraca, o espírito quebra e questiona: “Meu Deus, porque me abandonaste?” Evangelho segundo S. Mateus, Capítulo 27, Versículo 46

O autor é esse ser solitário que questiona, duvida, desconfia…, mas que não quebra, até porque não acredita!...por isso, vive e sofre intensamente, porque não se compraz com as promessas ludibriosas dos escritos sagrados ou com os milagres fajutos da Nossa Senhora de Fátima.

No cartoon, menção incontornável para o jornal satírico francês Charlie Ebdo, que o autor “(…) descobriu tardia e ironicamente, em 2015, aquando do atentado terrorista às suas instalações (…)”, motivado por uma publicação humorista de cariz religioso, que esbarrou no muro do fanatismo intolerante.

O autor acredita na liberdade de expressão incondicional, assuma esta a forma que assumir. Definitivamente não é adepto do “religiosamente correto”, nem tão pouco o detém o perigo de “ferir suscetibilidades”.

São conceitos completamente irrelevantes, sobretudo quando se interpõem no caminho da realidade nua e crua, perante a qual a maioria das pessoas tende a “virar a página”, a “mudar de canal”, a “fazer scroll” …

O autor considera absolutamente imprescindível esse confronto para nos fazer sair da nossa zona de conforto, essa bolha de comodismo que nos aconchega, nos embala…discuta-se política, discuta-se futebol, discuta-se religião! Coloque-se o dedo na ferida infecta, purulenta, putrefacta que tudo contamina com o seu fedor nauseabundo disfarçado de incenso!

 

Por fim, a inegável influência musical de Metallica – “Master of Puppets”, Roger Waters – “If I had Been a God” – e Nirvana – “Never Mind”, aqueles que o autor referencia como os seus “novos filósofos” e que o exortam à dissecação permanente dos fenómenos religiosos da atualidade.

O som possui, nesta curta metragem, um poder de referenciação, já que cada ritual religioso é evocado por uma musicalidade litúrgica típica e facilmente identificável pela generalidade das pessoas.

Simultaneamente, escutam-se os sons emitidos por diferentes animais que o autor associa a cada assembleia de fiéis: ratos, ovelhas e porcos. Mais adiante, explorar-se-á essa associação.

Pelo exposto, a curta metragem retrata a religião “(…) como o autor a vê e sente, e da mesma forma se opõe e resiste antagonicamente aos organismos patogénicos nela representados.”

            A curta metragem inicia-se com uma citação bíblica, a qual o autor elegeu como título para este projeto: “Bem aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.” Salmo 1.1-6

Ao longo da curta metragem percebe-se a ironia e o sarcasmo destas palavras, no contexto da mensagem essencial de crítica religiosa assumida pelo autor.

A primeira imagem que se visualiza é uma plateia numerosa de bonecos inanimados, confortavelmente instalada no sofá, assistindo, inerte, ao que se supõe serem blocos noticiosos sobrepostos e ininteligíveis.

Tendo por ruído de fundo o som da estática da televisão, somos confrontados com conjuntos de imagens de domínio público em stop motion que “assombram” diariamente o autor, pois são constantemente repescadas pela comunicação social.

São imagens de extremos de riqueza e pobreza, de vida e de morte, de sofrimento e de escárnio, de compaixão e de hipocrisia, que se repetem ao longo da história da humanidade e cujo denominador comum é conspurcação da sociedade pela religião que fatalmente degenera em guerras e catástrofes humanitárias. Verdades inconvenientes que o autor pretende gravar no (in)consciente dos espetadores.

A cena seguinte simula um rito judaico, concretamente, a visita ao Muro das Lamentações, o local mais cultuado da religião judaica. Ouvem-se cânticos religiosos, que se percebem ser alusivos à leitura da Tora, o livro sagrado dos judeus.

Ao mesmo tempo, escuta-se o barulho de ratos que o autor propositadamente associa a esta religião, ironizando com a situação que se viveu durante a II Guerra Mundial, em que inúmeros judeus, como forma de evitar a sua captura e consequente deportação para os campos de concentração nazis, se viram obrigados a esconder nas paredes e nos sótãos, quais roedores.

Dilatando a exploração do simbolismo deste animal, o autor critica o modo de vida dos judeus que se dedicam a pilhar e a juntar fortunas através de gigantescos lobbies na bolsa, bem escondidos em “ninhos” de empresas fantasma.

De regresso ao sofá, percebe-se que a plateia diminuiu consideravelmente. Segue-se um novo bloco de imagens em catadupa.

Mudança de cena para um outro local de culto que percebemos simular o interior de uma igreja cristã, até pela imponente e incontornável presença iconográfica da cruz latina, enfeitada com o terço.

Á semelhança do que aconteceu anteriormente, ouve-se música religiosa, desta feita cânticos gregorianos, interpretados por monges, intercalados com o som do balido de ovelhas.

A escolha do animal, ao contrário do agnus Dei, não é inocente. Na bíblia é frequente a comparação entre a assembleia dos fiéis e um rebanho de cordeiros. Porém, neste cenário concreto, a comparação é assumidamente pejorativa e crítica de todos os cristãos que, à semelhança do gado ovino, seguem cegamente o seu pastor ou o seu “cão”, metaforizando a permanente atitude de fuga e o pensamento amorfo dos crentes que, mesmo quando pensam estar a escapar à sua sina, o fazem “encarneirados”, a ilusão da liberdade a caminho do matadouro do livre arbítrio.

De novo o cenário do sofá, já poucos espetadores restam…de novo a projeção acelerada de imagens chocantes…

Estamos agora perante a simulação de mais um rito religioso, a ida a Meca, o propósito de vida maior do crente islâmico. O som de fundo é a voz de um almuadem a convocar os fiéis para a oração, como manda o Corão. Percebe-se o grunhido de porcos, chafurdando na imundice.

Uma vez mais, escarnece-se com o significado deste animal. O porco é o animal imundo, o ser abjeto mais desprezado pelos muçulmanos, aos quais nem sequer é permitido consumir a carne, sob pena de conspurcar a sua alma.

A analogia impõe-se…quando consideramos a falta de condições básicas em que muitos muçulmanos vivem devido aos constantes conflitos religiosos em que estão envolvidos um pouco por toda a parte, não podemos evitar pensar que, quais porcos, vivem em verdadeiras pocilgas, sacrificando o seu bem estar em prol de uma guerra que apelidam de “santa”.

Por fim, no sofá, só resta um indivíduo, o “bem aventurado”, aquele que não se mistura com a perfídia dos ratos, não vai encarneirado na cegueira do rebanho, nem chafurda na imundice com os suínos.

Simplesmente (sobre)vive na realidade, enfrentando as dificuldades da vida, em comunhão com a sua natureza humana, escutando o seu coração e percebendo, dessa forma, que apesar de todo o sofrimento, está vivo, não morreu! Não acordou ainda do “sonho dourado” que considera ser a sua vida aqui e agora e não num hipotético paraíso celestial.

A curta metragem termina com a projeção de um poema da autoria de António Aleixo:

“ Um Homem sonha acordado
Sonhando a vida percorre, 
E deste sonho dourado
Só acorda quando morre”.

O autor identifica-se com o “espetador” que permaneceu até ao fim e que agora descansa sozinho no sofá, como que a recarregar energias para enfrentar a vida, sem “cair na tentação” do “facilitismo psicológico” que para si representa ingressar numa determinada religião.

 

Durante a realização desta curta metragem, o autor optou por utilização de sons disponíveis em sites específicos para o efeito, tais como o  freesound e youtube.

Quanto às imagens que não são da sua autoria, resultam de uma recolha exaustiva, que culminou com um espólio de 262 fortes representações da sua enorme indignação.