ONE OF THESE DAYS I’M GONNA CUT YOU INTO LITTLE PIECES…
A realização da presente curta metragem, com a duração de um minuto, inspira-se muito objetivamente na música One of These Days, do álbum Meddle , lançado em 1971 pela banda Pink Floyd.
A música é toda ela composta por um misto de sons instrumentais e uma espécie de interferências sonoras telúricas, à exceção de um pequeno trecho, onde se pode ouvir a voz - como que “esconjurada” - de Nick Manson, ameaçando: - One of these days, I’m gonna cut you into little pieces…, que dá nome a esta curta metragem.
Conheço esta música há muitos anos e, na minha imaginação, já a havia “videoclipado” vezes sem conta, de diferentes formas, em diferentes cenários e com diferentes protagonistas, é um inexplicável hábito que possuo, desde sempre…vá-se lá perceber!
E eis que se apresenta agora a oportunidade de (real)izar um dos meus muitos “devaneios videográficos”! Em retrospetiva, suponho que a sucessão dos acontecimentos da minha vida que conduziram a este momento possa ser comparável a uma curta metragem, tudo tem um timming…
Passo a explicar: atualmente detenho um pequeno terreno por onde passarinham dois garnisés de estimação – spoiler alert #1: nenhum deles é o “protagonista”, obviamente! Na parcela de terreno contígua, o Sr. Aurélio também se dedica à criação (extensiva) de galináceos. Lá, os animais passeiam, debicam, esgravatam e reproduzem-se livremente, num cenário verdadeiramente digno da rotulagem: “Criação em Modo Biológico”, mas haverá outro modo de criação?! - spoiler alert #2 : são os “figurantes principais”, mas nenhum deles será o “protagonista”…
De volta à inspiração musical: Meddle, em português “Intrometer-se” e foi exatamente isso o que aconteceu: a música “intrometeu-se” nos meus pensamentos e, de repente, começa a compor-se uma narrativa crua, sanguinária, primitiva, basal. Desperta o instinto predatório e guloso, que estimula compulsivamente as minhas papilas gustativas – “Que bela cabidela que este bicho dava”!
Está dado o mote, o “bicho” foi sentenciado e sucumbe à sua baixíssima condição na cadeia alimentar. Já não é “bicho”, é comida! Convém pensar de forma dissociativa, a bem da nossa (in)consciência…
Registo os belos capões pavonearem-se pela propriedade, a minha camêra de filmar converte-se numa mira, qual será o escolhido?...Os acontecimentos precipitam-se, avanço para a “cena da perseguição”, instiga-me uma banda sonora frenética e furiosa, materializa-se a ameaça de Nick Mason: é chegado o dia…
Reflito: Regra geral, o ser humano, em seu perfeito estado de sanidade mental, “não mata por matar” outros animais. A morte do animal afigura-se como uma “consequência chata” da “necessidade” que o ser humano sente em se alimentar dele para sua própria “sobrevivência”.
Assim foi durante muitos séculos, à semelhança de outras espécies, o Homem caçava para comer, um ser omnívoro que, com o passar do tempo, se foi impondo cada vez mais como um ser carnívoro e omnipotente, à medida que vai sublimando, ao limite do sadismo, as suas técnicas predatórias. Até ao dia em que deixa de ser caçador ou agricultor e se converte num mero “consumidor” de faca e garfo.
As perguntas impõem-se: “ E se cada um de nós tivesse que matar para comer? Comíamos mais? Comíamos menos? Comíamos melhor? Comíamos pior? Como seria fitarmos “olhos nos olhos” as nossas presas, sentir o pulsar do seu último batimento cardíaco, limparmos o seu sangue das nossas mãos?”…claro que não passam de meras perguntas retóricas, sem qualquer intenção pseudomoralista, não me entendam mal! De mais a mais, dispenso as hipocrisias modernas sobre o assunto…
Voltemos à cabidela! Confesso que sinto uma certa adrenalina a percorrer-me o corpo enquanto filmo - com toda a reverência - a morte já anunciada do galináceo. Sem qualquer tipo de hesitação, o meu tio Quim sangra o animal, já encurralado numa sofisticada “máquina de matar frangos”. A minha prima Nela segura tremulamente a tigela que recolhe o sangue…a mulher também é um “bicho que sangra”…compreendo, pela sua fragilidade, que o momento não lhe seja particularmente agradável…
Mas, afinal, que animal é este que vemos agora sucumbir profeticamente? Como veio a tomar parte desta história?!
Ocorre que toda a produção do vizinho é de repente acometida por uma maleita estranha e, por conseguinte, não está “comestível”, para grande desconsolo do Sr. Aurélio, que fazia muito gosto em me “ oferecer um frango para o filme”, perdão, para a cabidela!
Sempre me intrigou este gosto particular do Sr. Aurélio pelos galináceos. Há quem tenha cães e gatos, mas o Sr. Aurélio prefere as galinhas, brilham-lhe os olhos quando fala desta sua paixão, conhece cada um das suas largas dezenas de animais e confessa –“Sabe, Sr. Sérgio, é um vício que eu tenho, só me dá despesa, não é para comer…os ovos até se estragam, não os vendo. Eu não os mato, quem trata disso é a minha mulher, eu só os levo”, como quem tenta aligeirar a sua “culpa”, o seu pecado “canibal”…e é este o mesmo homem que prontamente me oferece um galo para o “sacrifício”, uma das suas preciosas criaturas, que conhece desde pintainho…um dos seus animais de estimação!
Estranho? Mórbido? Sádico? Diria que é simplesmente algo já enraizado na nossa cultura gastronómica. De norte a sul de Portugal, os animais são confecionados em iguarias típicas que ilustram a diversidade de cada região. É como se comer com prazer dignificasse, de algum modo, a morte do animal e conferisse sentido à sua efémera existência.
spoiler alert # 3: O “protagonista” desta curta metragem acabou por ser um “ilustre desconhecido” proveniente de uma criação que se situa relativamente perto de onde habito…nada sei da sua história, mas doravante faz fatalmente parte da minha.
Segue-se a preparação do animal: é prontamente depenado, esventrado e, como prometido, “esquartejado” em pequenos pedaços, até se tornar quase irreconhecível na sua essência, não é “bicho”, é comida!
É com expetativa que acompanho a confeção da cabidela, processo extremamente demorado, incompatível com a ansiedade que já começo a sentir no estômago, perante a antecipação do repasto.
Serve-se a cabidela, acalma-se o frenesim, ouve-se o som do vento que dissipa todos os remorsos, crises de consciência ou dilemas morais, todos comem com prazer e brinda-se à saúde do defunto!
Por fim, daquele imponente animal de 5 kgs, já nada mais resta senão uns ossitos bem “chuchadinhos” e umas “miudezas” que se reservaram para uma boa canja.
- “ Ainda sobrou arroz, vou levar para dar às galinhas”. Completa-se o ciclo da vida e da morte. Na manhã seguinte, os frangos doentes do Sr. Aurélio consomem entusiasticamente os restos da cabidela, alheios às circunstâncias fortuitas que lhes pouparam a vida
Observo a cena e expresso mentalmente um último desejo moribundo de há muito tempo : “ Gostava que os meus restos mortais fossem lançados aos abutres…ou então aos meus cães…” Para variar, o pensamento associa-se de imediato à música e uma vez mais à minha banda de eleição : The Dark Side of Feeding…inicialmente foi este o título que idealizei para a curta metragem, mas após tantas horas a ver e a ouvir em looping o vídeo, o meu subconsciente psicopata “obrigou-me” a outra coisa…
Disclaimer
Os factos aqui relatados são reais e um animal foi morto durante a realização desta curta metragem.