O Funeral Falhado

O Funeral Falhado

Um Homem sonha acordado, sonhando a vida percorre e deste sonho dourado só acorda quando morre. António Aleixo O AMOR AMORTECEU A MORTE? A MORTE AMORTECEU O AMOR? O AMOR TECEU A MORTE? A MORTE TECEU O AMOR? NÃO ... O AMOR É O INÍCIO DA MORTE E ALTERA- A PARA SE ETERNIZAR... A MORTE SÓ EXISTE COM AMOR… POR ISSO O AMOR TECEU A MORTE… …E AMORTECERÁ PARA SEMPRE A TUA NO MEU Coração… Sérgio Teixeira A morte bateu-me à porta a 22/07/1994, num acidente de automóvel, a caminho de um concerto dos PinkFloyd, em Lisboa… morreu o meu primo e melhor amigo …. Num estado muito traumático e muito medicado, lembro-me, vagamente, do funeral…no entanto, nunca o consegui realizar intimamente… ao longo dos anos tentei, mas Ele não me sai da cabeça !… o coração não deixa … Ainda estava Ele internado e eu, em casa, proibido de estar no hospital …peguei nas minhas roupas e parte daquelas que os bombeiros me deram Dele, assim como em alguns bens, coloquei-as na minha cama e fiquei “ ao lado Dele” a chorar e a tentar, desesperado, de alguma forma, dar-Lhe força e vida !… Sendo eu ateu e não acreditando em ajuda divina, queria muito estar ao lado Dele … ainda hoje sinto que foi este um dos motivos pelos quais Ele não sobreviveu… A Amizade e o Amor, razões da nossa existência, demonstram-se, também, fisicamente…com um abraço…um toque…um limpar de lágrimas … de sangue … de ranho … de suor …e só o corpo o permitiria sentir… Infelizmente, só a minha vida continuou…da Dele, tenho memórias… fotografias …músicas na minha cabeça…e no meu coração… …e um pequeno papel desenhado, escrito e plastificado por Ele … com uma data posterior à Sua morte … um poema que demorei anos a saber que era do António Aleixo… Como esquecer …?!?!?!? Não sei e não quero…!!!! Fiz este cenário e estas fotografias na “tentativa” de fazer um funeral e, assim, acalmar os meus sentimentos, e ultrapassar este constante “sentir” de quase 24 anos da minha vida…mas, rapidamente, senti que é só mais uma homenagem que lhe faço …mais um desabafo que tenho…e que nunca lhe irei fazer o “funeral “… Tenho estas imagens há muito anos nos meus pensamentos / sentimentos diários, por isso, decidi dar-lhes corpo e vida …montei o cenário na minha garagem e deixei-o lá…à espera da hora “certa” …para o abordar da forma “correta“… A ganhar coragem…!!!!!! O tempo é cruel…não nos deixa esquecer …nem cura, como dizem !... o tempo destrói corpos e acabou, num mês, por transformar um cenário limpo, colorido, com “vida” , em algo bafiento… húmido… morto… Se calhar, era o que tinha de ser …. e mesmo assim tem a sua beleza … Assim, olhei-o…rodeei-o…entrei nele …e fotografei-o de uma forma estranha …fiz desfoques de assunto importantes…posicionei partes minhas e do Victor em segundo plano… destaquei “insignificâncias” das nossas vidas … enquadrei objetos que estavam lá só para completar o cenário …parece que não tinha sido montado por mim…… Mas a fotografia não acaba ali…depois, temos que as ver no ecrã e, mesmo sem alterar o que fizemos minutos antes de carregar no botão, vem o papel… e aí vem tudo de novo !... parece que fotografamos com o coração e ele retém… processa…ensanguenta…e, do nada, “bombeia-nos” tudo, como quer e quando quer, para a cabeça !...que, depois, nem sempre gosta do que lhe chega e reage bem ou mal, conforme os dias …mas o mal já está feito!... Com este processo dei mais um passo …dei mais um grito….fiz mais um desabafo…e agora que decidi tornar “públicas” estas palavras e fotografias … Aprendi…aprendi que a fotografia não é só um simples carregar no botão …um simples posicionar de luzes e objetos … A fotografia é exorcizarmos algo de dentro de nós …